quinta-feira, 12 de abril de 2018

sábado, 13 de janeiro de 2018

Beije meus lábios

Com a minúcia de um ritual, beije meus pés
Depois massageie-os
Beije meus joelhos, os dois
Beije minhas coxas interna e externamente

Pule para meu umbigo
Passe a língua ao seu redor suavemente
Não deixe muita saliva
Use seus sentidos – todos
Sinta o odor que cada parte do meu corpo exala

Me vire bruscamente, mas com cuidado
Resvale seu nariz no córrego das minhas costas
Deslize as pontas dos dedos em minhas costelas
Me deixe com bolinhas por todo o corpo

Olhe, cheire, deguste, ouça meus seios
Depois beije um por um que é para não rolar ciúmes
Muita atenção ao pescoço
Ele tem o poder de arrepiar todos os meus pelos

Beije meu queixo, bochechas e suas covas
Minhas olheiras tão marcadas por te esperar
Meus olhos acostumados de te ver no pensamento
Minha testa como um pedido respeitoso
Para que eu abra minhas portas

Encha suas mãos com os meus cabelos
Memorize o nível de sua maciez
Embriague-se com o seu cheiro

Só então, depois de percorrer meus mundos
Beije meus lábios: o primeiro e os segundos...

Anne Lucy

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

domingo, 31 de dezembro de 2017

Fever 77º

Deixa-me entrelaçar margaridas
nos cabelos de teu peito.
Deixa-me singrar teus mares
mais remotos
com minha língua em brasa.

Quero um amor de suor e carne
agora:

enquanto tenho sangue.

Mas deixa-me sangrar teus lábios
com a adaga de meus dentes.
Deixa-me dilacerar teu flanco
mais esquivo
na lâmina de minhas unhas.

Quero um amor de faca e grito
agora:

enquanto tenho febre.


Caio Fernando Abreu

 

sábado, 30 de dezembro de 2017

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Amo uma mulher de longa cabeleira

Amo uma mulher de longa cabeleira
Como num lago mergulho em seu rosto suave
Minha fronte voga lentamente em seu ventre
Apalpo mordo afago seus volumes sedosos
Revisto cavidades torno-me a esponja do seu suco
Mulher meu pântano aranha tenebrosa
Labirinto infinito tambor palácio estranho
És minha única irmã de abandono e esquecimento
Teus peitos e tuas nádegas duplos montes gémeos
oferecem-me a brancura de uma pomba gigante
O amor que damos um ao outro é de noite na noite
Em crueldades magníficas reúne-nos a cama
Levantam-se colunas de respiração e odor

Trituro masco sorvo precipito-me
O desejo floresce entre túmulos abertos
Túmulos de beijos bocas ou moluscos
Ando a voar enfermo de venenos
Reinando em tuas membranas pleno de viço e errante
Nada termina nem começa tudo é triunfo
da ternura vigiada de silêncio
O pensamento afastou-se de nós
Nossas mãos juntam-se como pedras felizes
Está a mente quieta qual imóvel palmípede
As horas derretem-se os minutos esgotam-se
Não existe nada mais que agonia e prazer

Prazer tua cara não fala mas cavalga
sobre um mundo de nuvens na caverna do ser
Somos mudos não estamos na vida ridícula
Chegamos a ser terríveis e divinos
Fabricantes secretos de mel em abundância
Ouvem-se os gemidos da carne infatigável
Num instante ouvi metade do meu nome
a sair subitamente de teus dentes cerrados
Na luz consegui ver a expressão da tua face
que parecias outra mulher naquele êxtase

A escuridão põe-me furioso não te vejo
Não encontro tua cabeça e não sei o que toco
Quatro mãos afastam-se com seus dedos dormindo
e longe delas vagueiam também os quatro pés
Já não há donos não há mais que suspenso e vazio
O barco do prazer encalha no alto mar
Onde estás? Onde estou? Quem sou eu? Quem és tu?
Para sempre abandono este interrogatório
Ébrio enfeitiçado louco às portas da doença
grandiosa a paixão espero o turno fálico

Novamente num quarto estamos os dois juntos
Nus esplendorosos cúmplices da Morte.

Carlos Edmundo de Ory
Tradução: José Bento

Man Ray, Celestial Tresses, 1937

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

domingo, 3 de dezembro de 2017

“There is no love without eroticism, just as there can be no eroticism without sexuality … sex is the root, eroticism the stem, and love the flower.”

Octavio Paz, A Solar System from The Double Flame: Love and Eroticism




sábado, 5 de dezembro de 2015

A boca

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade



Henri d'Ursel, La Perle, 1929


terça-feira, 1 de setembro de 2015

domingo, 5 de julho de 2015

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Poema sobre o amor


Hoje de manhã, ao acordar,
pensei:
hoje, o amor vai assaltar-te
embora não soubesse como ele é
nem o que vale.
Eu acho que as coisas realmente grandes na história
(tanto na história UNIVERSAL
como na história pessoal
mas talvez eu esteja errado)
de modo nenhum são feitas por amor
ou em amor ou qualquer coisa assim;
eu acho que as coisas realmente grandes
se fazem por razões completamente diferentes.
Por exemplo, a SIEMENS não constrói por amor
uma barragem em Cabora Bassa, e também
uma revolução do amor não
levará a nada.
Claro que se pode tentar
mas eu não acredito nisso.
E tentei
explicar isto à mulher-do-meu-amor
(que acordou logo a seguir a mim
talvez eu a tenha acordado
ao erguer-me para olhar para o despertador
passava pouco das onze e era sábado)
e ela disse
que não fazia SENTIDO
eu estar AGORA a explicar-lhe isto
e eu dei-lhe razão
e
ela
deitou a mão à minha piça. Depois
fizemos amor até ao meio-dia-e-meia
sem que daí
resultasse
nada de verdadeiramente grande
digamos: pelo menos com metade da grandeza
dos esforços de Leviné em Munique em 1919.

Jürgen Theobaldy

Colette Coughlin

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

domingo, 28 de dezembro de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

sábado, 19 de julho de 2014

Soneto CLXVIII























Este que vês aqui, formosa dama,
Entre moles testículos pendente,
Já foi em outro tempo raio ardente,
Hoje é pavio, que não solta chama:

Este que vês aqui, já foi o Gama
Dos mares onde navega tanta gente;
Hoje é carcaça velha, que somente
Dos estragos que fez conserva a fama:

Este que vês aqui, foi do trabalho
O maior sofredor (quem tal dissera?)
Hoje do amor é lânguido espantalho:

Este que vês aqui, na ardente esfera,
Já foi flor, já foi luz, já foi caralho;
Mas hoje não é já quem dantes era.

António Lobo de Carvalho (1730-1787)

domingo, 22 de junho de 2014

Yul Brynner

Yul Brynner por George Platt Lynes, c. 1942

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