segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Deus sabe que ninguém tem

Eugène Le Poitevin, Erotic Deviltries - The Tree of Life, 1832























Deus sabe que ninguém tem
         instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
         o tesouro que El’me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
         é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
         sucumbe ao terno ardor.
Tão alto como um pilar
         (como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
         de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
         com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
         entre onde os montes estão.
Sêde vós a lá guardá-lo
         com vossa mão cuidadosa
Vêde quanto ergue a cabeça
         como bandeira orgulhosa!
Nem dareis pela entrada,
         tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
         quando o vento se descansa.
Que el’ seja asa da panela
         entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
         até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
         que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
         tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
         tão forte e tão magistral:
É coluna dura e longa
         de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
         ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
         para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
         na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
         haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores – o gosto
         que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
         ou de prata chapeada.

Abu Novas (c.750-c.813), tradução de Jorge de Sena in "Poesia de 26 séculos - de Arquíloco a Nietzche"


Aubrey Beardsley, 1894


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