domingo, 15 de julho de 2012

Pedro Soriano ou a Torre de Babel ou A Porra do Soriano - de Guerra Junqueiro





















Eu canto do Soriano o singular mangalho!
Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
Para o cantar inteiro e o cantar bem
Precisava viver como Matusalém
Dez séculos!
Enfim, nesta pobreza métrica
Cantemos essa porra, porra quilométrica,
Donde pendem os colhões de que dão ideia vaga
As nádegas brutais do Arcebispo de Braga.

*

Sim, cantemos a porra, o caralho iracundo
Que, antes de nervo cru, já foi eixo do Mundo!
Mastro do leviatã! Eminência revel!
Estando murcho foi a Torre de Babel!
Caralho singular! É contemplá-lo!
É vê-lo
Teso! Atravessaria o quê?
O Sete-Estrelo!!
Em Tebas, em Paris, em Lagos, em Gomorra
Juro que ninguém viu tão formidável porra!
É uma porra, arquiporra!
É um caralhão atroz
Que se lhe podem dar trinta ou quarenta nós
E, ainda assim, fica o caralho preciso
Para foder, da Terra, Eva no Paraíso!

É uma porra infinita, é um caralho insonte
Que nas roscas outrora estrangulou Le Comte.

*

Oh, caralho imortal! Glória destes lusos!
Tu poderias suprir todos os parafusos
Que espremem com vigor os cachos do Alto Douro!
Onde há um abismo, onde há um sorvedouro
que assim possa conter esta porra do diabo??!
Marquês de Valadas em vão mostra o rabo,
Em vão mostra o fundo o pavoroso Oceano!
─ Nada, nada contém a porra do Soriano!!

*

Quando morrer, Senhor, que extraordinária cova,
Que bainha, meu Deus, para esta porra nova,
Esta porra infeliz, esta porra precita,
Judia errante atrás de uma crica infinita??
─ Uma fenda do globo, um sorvedouro ignoto
que lhe há de abrir talvez um dia um terremoto
para que deságue, esta porra medonha,
em grossos borbotões de clerical langonha!!!

*

A porra do Soriano é um infinito assunto!
Se ela está em Lisboa ou em Coimbra, pergunto?
Onde ela começa?
Onde é que termina
Essa porra, que estando em Braga, está na China,
Porra que corre mais que o próprio pensamento,
Porque é porra de pardal e porra de jumento??
Porra!
Mil vezes porra!
Porra de bruto
Que é capaz de foder o Cosmos num minuto!!!


Guerra Junqueiro (1850-1923)

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