domingo, 13 de maio de 2012

Crónica familiar

Havia o marido e sua mulher.
Ela, Maria. O homem, José.

Maria, mais jovem, era de prendas
domésticas. Fazia rendas 

e sob as agulhas guardava um segredo
que mesmo sonhá-lo causava-lhe medo.

Maria era jovem e tinha tesão.
O homem, mais velho, não tinha não.

Maria sonhava com falos suaves
ocultos em plumas, como o das aves.

José carpintava e de noite, cansado,
beijava-lhe o rosto, virava pro lado.

Na varanda da casa, José com a enxó
trabalhava um carvalho. Maria era só

desejo incontido, desejos impuros
(foder com um bruto, de pé, contra o muro).

Maria benzia-se, afastando da mente
o pecado mortal e inconsequente.

José labutava sobre a madeira.
Estava fazendo uma nova cadeira

para encostar o corpo reumático
nas noites em claro de homem asmático.

Um pombo azul, recendendo a lavanda,
pousou bem de leve naquela varanda.

Maria abismou-se na sua beleza,
a força selvagem sob a leveza

das plumas azuis. O rolo de lã
caiu do seu colo nessa manhã.

De pernas abertas, Maria sentiu
um leve arrepio de febre e de frio.

Sentiu que o pombo lhe penetrava
e vezes seguidas ejaculava

um sémen translúcido nas suas entranhas.
E veio o gozo, com força tamanha,

que Maria se viu levitando além
das nuvens, do céu, do horizonte. E sem

perceber que José estava por perto,
deu um grito de gozo, de peito aberto.

José suspendeu o serrote no ar.
O pombo sumiu. Maria, ao voltar 

a si, se compôs, arrumou o vestido
e olhou com ternura para o marido.

Ainda sentindo os mamilos em riste,
perguntou a José: por que estás triste?


Nei Leandro de Castro



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