quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Noite

Pierre Bonnard, 1899

A noite era de ausência, como tantas outras. O cansaço dominava-a em exaustão, e atirara-se para cima de cama, rendida a esta dormência de sentidos, não tocados. Embora fizesse calor, sentiu frio, tal como sucedia sempre que estava mais nervosa. Evocou-o, e adormeceu. Não se recorda do que sonhou, mas acordou em sobressalto, já o dia tinha raiado. Ainda o cansaço, (d)a ausência e a sensação de que algo poderia não correr bem durante o dia...
O calor invadira-a, não que a casa estivesse quente mas sentia um misto de tristeza, carência e sobretudo uma humidade íntima em sobressalto de espasmos que lhe inquietavam. Discorriam imagens das horas de prazer a que se tinham dedicado, um ao outro, em intermitência de beijos, massagens e penetrações. Recordar-se dele era excitante! Como se uma química inigualável existisse quando ainda só adivinhavam o encaixe, tantas vezes sugerido, descrito e registado na ardência de sexo palpitante, pele arrepiada, em mãos que, sozinhas, percorreram, ritmadamente, não só zonas erógenas como também a alma. Sim, porque ansiavam um encaixe de corpo e alma, harmonioso, sensual, espontâneo. Aconteceu, e repetia-se sempre que quisessem porque a fusão acontece quando há plenitude no tacto, na voz, no gosto e no odor que circulam em fluidos e fragmentos de pele, língua e sobretudo na intenção de coração.
Então porque se sentia tão insegura? Porque amava-o, mesmo sem o querer, e esperava. Porque não era suficiente escutá-lo em voz. Porque queria, de repente, atravessar o espaço distante, como uma flecha, e tirar-lhe num ápice o telefone ainda da mão e preenchê-lo de beijos e carícias despidas. Encaixar-lhe no colo, de frente, e roçar-lhe já molhada e de seios a descoberto, excitados, que entravam em sua boca sem pedir licença. E dizer-lhe, em terna ordem: "Vem, possui-me, sou tua! ...já, não aguento." E em sorriso, indecências e gestos penetrantes, vê-lo diante de si, em espasmos de prazer, gemidos sentidos em simultâneo orgasmo inebriante.

excerto de Desafios em Fusão, de Anna Ruta e Rui Reis



















Hiroshima Mon Amour, de Alan Resnais, 1959

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