domingo, 9 de janeiro de 2011

Prazeres Solitários


François Boucher

Os prazeres sexuais solitários foram os que deixaram menos vestígios na arte ou na literatura. O paradoxo é que tanto os textos como as representações eróticas devem muitas vezes a sua existência ao facto de fornecerem material para fantasias masturbatórias. A masturbação é vista, primeiro, como juvenil, e segundo, como o último recurso, um alívio para aqueles que, por qualquer razão, não conseguem arranjar parceiros de forma alguma.

Tudo o que dizia respeito à masturbação era uma obsessão para a classe médica do século XIX. Pensava-se que enfraquecia quem a praticava por drenar algum tipo de fluido espinal vital. Para a combater foram inventados toda a espécie de engenhosos dispositivos onde eram confinados os infelizes jovens. Um deles, para rapazes adolescentes, gerava uma carga eléctrica e fazia soar uma campainha para acordar o portador sempre que este tinha uma erecção involuntária.

Esta obsessão estava obviamente ligada à generalizada obsessão do século XIX com a sexualidade. No entanto, o medo obsessivo do sexo, com a consequente desaprovação de quase todas as formas de actividade sexual, entrou em cena muito mais tarde e durante um período mais curto do que é geralmente calculado. Os primeiros vitorianos assumiram atitudes mais decididas para com o sexo do que hoje se pensa. Muitos deles, especialmente entre a aristocracia, mantiveram as atitudes sexuais relaxadas dos tempos do rei Jorge IV. Um exemplo disso foi Lorde Palmerston, um dos primeiros-ministros de maior sucesso da rainha Vitória, e famoso pelas suas amantes.


François Boucher

No século XVIII, os fazedores de imagens galantes - Boucher em França, Rowlandson em Inglaterra - oferecem por vezes imagens de mulheres a masturbarem-se. O seu propósito é claramente provocador. A mulher teve de recorrer a isto porque tem necessidade urgente de um homem, uma necessidade que o observador se pode imaginar a satisfazer. Na sua forma mais atrevida, a masturbação feminina é posta num contexto de exibicionismo.

Numa gravura de Rowlandson, por exemplo, uma mulher masturba-se numa plataforma perante um círculo de homens pasmados e lúbricos. O poder que ela tem sobre eles é absoluto. Longe de ser explorada, é ela quem explora o seu público escravizado.

Signior Dildo

'Vós todas, senhoras da alegre Inglaterra
Que foram beijar a mão da Duquesa,
Será que reparastes mais tarde no espectáculo
Num nobre italiano chamado Signior Dildo?

De início podeis pensar que não é ninguém importante
Porque aparece num simples casaco de cabedal,
Mas quando as suas virtuosas habilidades conhecerdes,
Ireis prostrar-vos pelo chão e adorar o Signior Dildo.

As nossas finas e delicadas duquesas têm um truque
De se apaixonarem por um idiota devido à sua picha;
As janotas despiram-se, deram as Graças mas sabem
Da discrição e do vigor do Signior Dildo.

Este Signior é certo, seguro, pronto e burro
Como sempre foi  vela, cenoura ou polegar;
Então fora com essas engenhocas más, e mostrem
Como apreciam os justos méritos do Signior Dildo.'

John Wilmot, 2º Conde de Rochester (1647 - 80)

François Boucher


Fonte: Ars Erotica, de Edward Lucie-Smith

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