terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pandora



No final da década de 20, Louise Brooks protagonizou A Caixa de Pandora. Neste filme, ela interpreta Lulu, uma jovem radiante que é inconscientemente responsável pela ruína de seus amantes e é vítima da exploração daqueles que se aproveitam de sua beleza e ingenuidade.

Brooks empresta à personagem Lulu uma grande carga de erotismo. Não o erotismo fabricado dos dias de hoje, em que as formas do corpo e as caras e bocas são responsáveis pela conotação sexual da obra.

Em A Caixa de Pandora, Brooks constrói uma jovem sedutora pela química resultante de um forte sex-appeal aliado a um ar infantil, quase inocente. Mas também é esta mistura explosiva que vai causar a destruição de Lulu.

A sua vida é marcada pela presença de Schigolch (Carl Goetz), um velho imoral que finge ser seu pai para explorá-la como prostituta e que tenta colocá-la no espetáculo de trapezismo do acrobata Rodrigo Quast (Carl Raschif). Entre os clientes de Lulu está Ludwig Schoen (Fritz Kortner), influente dono de jornal que está noivo da filha do Ministro do Interior. Preocupado com sua imagem, ele decide encerrar o caso com Lulu.

Schoen propõe ao seu filho, o dramaturgo Alwa (Franz Lederer), contratar a jovem para o seu espectáculo. Nos bastidores do show, Lulu e Schoen encontram-se e reiniciam o caso, no entanto, são flagrados por Alwa, que nutre uma paixão secreta pela jovem. A ruína de Schoen só não será maior se ele se casar com Lulu. É o que acontece. Mas, num acesso de ciúme, tenta provocar o suicídio de Lulu que, apavorada, atira nele matando-o.

No tribunal, ela é condenada a cinco anos de prisão, mas devido a um tumulto provocado por Schigolch, consegue fugir. Foge para o lar dos Schoen, onde irá encontrar Alwa. Apaixonado, ele decide protegê-la e fogem do país. No entanto, durante a fuga, um desconhecido reconhece a foragida e começa a chantagear Alwa exigindo dinheiro em troca do seu silêncio. Neste meio tempo, Schigolch e Rodrigo Quast reencontram-na e juntos seguem viagem. Desesperado, Alwa tenta conseguir dinheiro no póquer mas é desmascarado e expulso do navio.

Ao mesmo tempo, Quast exige que Lulu arranje dinheiro para o show de trapezismo, enquanto que o desconhecido chantagista vende a jovem a um egípcio. Lulu foge, junto com Alwa e Schigolch, para Londres. Lá, os três se vêem em extrema miséria e Lulu decide se prostituir. Consegue o seu primeiro cliente mal sabendo que caía nas garras de Jack, o Estripador.

A mulher, na figura de Lulu, é representada ora como agente da desagregação moral e social dos homens — a ruína de Schoen e Alwa —, ora como objeto de troca — como revela a atitude de Schigolch, Rodrigo Quast e do chantagista.

O próprio título do filme faz referência a um mito que, visto superficialmente pelo olhar contemporâneo, viciado no politicamente correto, denigre a imagem da mulher.

Segundo a mitologia grega, Zeus criou a primeira mulher, um ser sedutor. Essa figura chamada Pandora é, na realidade, uma armadilha que é enviada aos homens. Ela é responsável pela guarda de uma caixa (noutras versões, um vaso) e é aconselhada pelos deuses a nunca abri-la. No entanto, Pandora não segue o conselho e, ao levantar a tampa, liberta todos os males que se irão espalhar pelo mundo.

Este mito é retomado no julgamento de Lulu e serve de atenuante na imputação da pena. Segundo o juiz, Lulu, assim como Pandora, não tinha consciência das conseqüências de seus actos.

No entanto, será a consciência que irá selar definitivamente a decadência de Lulu. Buscar a prostituição será a primeira atitude tomada de sua própria vontade.

Pabst trata com subtileza rara um tema pesado como o deste filme. O erotismo acentuado pela personagem de Louise Brooks jamais cai na vulgaridade. Ele está presente no rosto inocente da actriz, nos gestos suaves e na interpretação carregada de ambigüidade.


A Caixa de Pandora, de G. W. Pabst, 1929

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