segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Anaïs Nin (Vida - Parte IV)



Os conflitos internos de Anais Nin eram muitos e complexos. Assim, levada pela sua vontade de se conhecer melhor e de resolver alguns dos seus traumas, a escritora começou a interessar-se pela psicanálise,consultando frequentemente psicanalistas proeminentes, como Rene Allendy e Otto Rank, aproveitando as terapias para os seduzir.

A escritora chegou a estudar Psicologia, sob a alçada de Rank, a fim de aprofundar os seus conhecimentos. A influência da psicanálise na vida de Anais Nin ficará bem patente em todos os seus trabalhos a partir daí. O seu primeiro romance A Casa do Incesto, de 1936, é o exemplo do seu estilo surrealista e simbólico, inspirado nos estudos freudianos. Os mesmos condimentos podem ser encontrados em Espia na Casa do Amor, de 1954, sem dúvida,o seu livro mais famoso.

As consultas com os psicanalistas ajudam, também, a escritora a resolver os seus problemas com a figura paterna. Este homem, que se mantivera ausente quase toda a sua vida, criara profundos traumas no carácter de Anais. Conflitos que só conseguiria ultrapassar após uma relação incestuosa com o pai.

Joaquin Nin, então com 54 anos, entra de novo na vida de Anais em 1933, durante umas férias na Riviera Francesa. A evidência das semelhanças comportamentais e de carácter entre pai e filha era tão grande e manifesta que ambos começaram a sentir uma forte atracção um pelo outro. Joaquin sentia-se encantado pelo charme da sua filha. "Tu és a sintese de todas as mulheres que eu amei. Que pena seres minha filha", disse-lhe ele.

Mas isso nao o impediu de lhe pedir um beijo. No diário, a escritora descreveu a emoçãoque sentiu ao beijar o seu pai, manifestando o desejo que tinha em unir-se com ele. Os nove dias que se seguiram ao primeiro beijo seriam vividos em completa orgia obsessiva. Joaquin "era o homem mais viril" que Anais já conhecera e ela acreditava que finalmente tinha conseguido a aprovação do seu pai. "Eu amo-o. Não quero mais ninguém. Ele preenche a minha vida, os meus pensamentos, o meu sangue", escreveria no seu diário.

Mas, após ter confessado ao seu terapeuta e a Henry Miller a sua aventura incestuosa, os seus sentimentos mudaram. A excitação tinha acabado e Joaquin juntou-se a uma longa lista de amantes do passado. No seu diário, encontra-se, tambem, um comentário sobre outra sedução incestuosa, com o seu irmão Thorvald. Mas não há provas sobre a concretização desta união amorosa.

Anais Nin conseguiu manter, ao longo da sua vida, uma longa lista de amantes, tendo casos amorosos com homens de diversas idades, dos mais variados estratos sociais e culturais. Teve romances com jornalistas, como Gonzalo M're, escritores de renome, como Gore Vidal, e muitos homens com metade da sua idade, a que chamava "loucura erótica com lindos rapazes". Com os relatos das suas aventuras amorosas acabou por ganhar prestigio como escritora erótica.

Apesar do grande reconhecimento, o seu trabalho, ao princípio, foi mal interpretado e atacado como sendo de maus gosto. Muitos aconselharam a escritora a abandonar os seus diários. Mas quase todos eram unânimes em reconhecer que naquelas páginas encontrava-se alguma da melhor escrita de Anais Nin. Os vários volumes que constituem o diário da autora foram muitas vezes reescritos e trabalhados até se transformarem num autêntico romance. Em 1966 foi publicado o primeiro livro da colecção, sendo recebido entusiasticamente pela critica e pelo público. A mulher que estava "determinada a ser famosa" encontrava, finalmente, a atenção que tanto tinha desejado.

Mas Anais Nin continuava em busca da plenitude emocional e sexual. Em 1947, a escritora, ainda detentora de uma beleza singular, envolve-se em mais um romance polémico e que a leva à bigamia. Desta vez, o caso dá-se com Rupetr Pole, um homem que conheceu num elevador. Anais e Rupert apaixonaram-se quase à primeira vista, iniciando um caso ardente que se arrastou por muito tempo. A escritora pretendia viver com ele, porém não estava disposta a divorciar-se de Hugo. Rupert pensava no casamento, suplicando a Anais que aceitasse contrair matrimónio. Temendo perdê-lo por causa disso, Anais decidiu mentir, dizendo a Rupert que se tinha divorciado de Hugo.

A união legal acontece em 1955. A partir daqui, Anais Nin vê-se presa numa teia de mentiras, obrigada a dividir-se em duas, passando o tempo em viagens entre Los Angeles, onde vivia com Rupert, e Nova Iorque, onde era a esposa de Hugo. Ela chamava a este malabarismo de esposos "o seu trapézio". Chegou a elaborar uma caixa das mentiras, na qual inseria notas que a ajudavam a manter-se consciente das duas histórias separadas. "Não consigo ter um só amor", justificou-se mais tarde.

Após urn periodo de 13 anos de loucura e agitação constante, a mentira bizarra de Anais foi exposta. Incompreensivelmente, nenhum dos homens foi capaz de desistir da escritora, tendo concordado em viver aquela mentira e partilhar a mesma esposa. Apesar do acordo, ela passou os seus últimos anos com Rupert, escrevendo nos seus diários sobre o grande amor que ele nutria por ela.

A vida de extremos que levara, de abuso de sedativos e de abortos feitos em condições deploráveis, começava agora a causar os seus efeitos na saúde da escritora. A doença foi atacando Anais e aos 63 anos foi-lhe diagnosticado urn cancro na vagina, que se alastrou por todo o seu corpo. Nas suas ultimas citações, incluidas no seu diário, pode-se ler: "26 de Novembro de 1976. Fui ao hospital e morri. Morri entre lençóis limpos, medicamentos, acabei como um insecto." E apesar da quimioterapia intensiva e dois tratamentos penosos, o cancro venceu a escritora. Anais Nin morreu no dia 14 de Janeiro de 1977. No obituário que apareceu no New York Times, lia-se que a escritora tinha deixado viúvo Hugh Miller.O Los Angeles Times, relatava a viuvez de Rupert Pole. Até ao fim enganou os homens.


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