segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Anaïs Nin (Vida - Parte III)



Uma das primeiras paixões de Anais Nin foi o seu primo Eduardo Sanchez, um licenciado de Harvard que ela considerava ser a sua alma gémea e o seu alter ego. Desde tenra idade, a ligação entre os dois era tão óbvia que os pais de Eduardo, ao perceberem o que se passava entre os jovens, proibiram qualquer encontro entre os dois. Apesar disso,Anais e Eduardo continuaram a ver-se regularmente, numa ligação que acabaria por durar por muitos anos.

0 romance só terminou quando Eduardo começou a expressar dúvidas sobre a sua sexualidade. Anais sentiu-se chocada, mas prontamente decidiu que iria "curar" Eduardo do seu mal. Levou-o para um quarto de hotel onde fez amor com ele apaixonadamente. 0 "tratamento" não resultou e, pouco tempo depois, Eduardo assumia definitivamente a sua homossexualidade.

Uma intimidade, que foi quase consumada, aconteceu com John Erskine, um romancista famoso, crítico literário e musicólogo, professor de Literatura de Hugo, na Universidade de Columbia. O casal conheceu
Erskine nos edifícios da faculdade, onde se encontravam regularmente, tornando-se rapidamente grandes amigos. Os três costumavam sair regularmente, participando em festas e tertúlias animadas.

Anais só não avançou para a aventura porque, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Hugo foi transferido para Paris. Estávamos em 1928 e Anais regressava à sua terra natal. Mas a história não ficou por aqui. Um ano depois, a escritora descobre que Erskine planeia uma visita a Paris e logo determina que o irá seduzir. Quando Erskine chega, finalmente, Anais derrete-se em charmes e delicadezas  Os primeiros encontros entre os dois, porém, não são mais do que meras permutas intelectuais, em que os dois conversam sobre os livros e a actualidade.

Num jantar formal, Anais descreve o ambiente entre eles como sendo "repleto de desejo", sentindo que estava prestes a explodir enquanto "os seus olhos me devoravam". Na manhã seguinte, Erskine foi visitar Anais, encontrando-a sozinha em casa. Os dois caíram instantanemente no sofá, beijando-se e acariciando-se. Erskine pediu-lhe, então, para ela tirar a roupa. Anais saiu da sala, voltando coberta apenas por um xaile espanhol. O professor deitou-se com ela, mas não foi capaz de lhe tocar. Retirou-se,dizendo "não posso fazer isto ao Hugo".

Anais nunca recuperou verdadeiramente desta rejeição.Terá sido a única vez que um homem lhe terá negado os prazeres físicos. Nesse Natal, ela passou os dias na cama, procurando calar a mágoa a ler A Woman in Love, de D.H. Lawrence. É precisamente o interesse por este escritor que a leva à publicação do seu primeiro trabalho: D. H. Lawrence, Um Estudo Amador (1932). Um ensaio que conduziu Anais ao seu mais famoso e tórrido affair,com o autor Henry Miller. O advogado que negociou o contrato de Anais com a editora, apresentou-a ao controverso escritor. Nesta altura, Miller era ainda bastante pobre, sem livros publicados, longe da consagração literária.

Anais e Henry partilhavam a mesma paixão por D. H. Lawrence. Foi preciso apenas um jantar a dois, para que ambos ficassem perdidos de amor. Assim que o conheceu, ela deslumbrou-se pelo seu carácter de vagabundo incorrigível. Adorava os círculos boémios em que Miller se movia, o seu estilo de vida e o desprezo pelas convenções. Mas mais do que tudo, Anais era fascinada pela sua misteriosa e insinuante esposa June.

Apesar de professar que amava Henry unicamente pela sua mente, Anais não resistiu a um envolvimento mais sério. Em breve, os dois escritores se tornariam amantes inseparáveis. Curiosamente, e ao contrário do que fazia com outros homens, os diários da escritora não dão detalhes sobre o primeiro encontro sexual que manteve com Henry, no Hotel Parisian. Anais escreveu apenas: "A ternura das suas mãos, a penetração inesperada ao meu núcleo, mas sem violência.Que estranho e gentil poder."

Os dois amantes nunca fizeram grande esforço para esconder a sua relação. 0 caso era do conhecimento público e até Hugo anunciava as suas entradas em casa com algum barulho, para os salvar do embaraço de serem apanhados em flagrante. Anais e Henry encontravam-se muitas vezes na casa da escritora, em aventuras sexuais que chegavam a durar dias a fio. "Tu és comida e bebida para mim", dizia Henry a Anais. Ambos se sentiam intrigados com o ilimitado apetite sexual que nutriam um pelo outro.

O romance de Anais com Henry continuou durante toda a década de 30. Nesse periodo, a escritora esteve também envolvida com outros homens, mas todos eles não passavam de conquistas momentâneas. Anais dizia que a sua receita para a felicidade era manter muitos amantes e, se possível, ter várias relações sexuais com diferentes homens no mesmo dia. Henry Miller, porém, tinha um lugar privilegiado na lista dos seus amores.

O romance entre os dois escritores não era apenas uma aventura sexual, sendo, acima de tudo, a grande inspiração literária de ambos. Crítica e competitiva, Anais encarava-a como uma relação simbólica:
"Preciso de um pai, um guia. Preciso da experiência de Henry, do seu conhecimento,da sua maturidade. Ele precisa da minha clarividência e da minha subtileza."

Na verdade, muitos dos melhores trabalhos de Nin e Miller foram produzidos durante os tempos do seu romance.Anais vivia completamente obcecada por Miller, tendo pedido a Hugo para financiar o seu amante, e as suas extravagâncias, enquanto os seus livros não obtivessem sucesso. 0 seu amor por Henry e, mais tarde,por June tornara-se numa fixação. Sentia-se presa ... e não queria fugir.

Sempre em busca de novas experiências sexuais, Anais deixa-se seduzir por June, com quem inicia a primeira de várias relações lésbicas.A escritora estava fascinada com as histórias de abusos de drogas e
bissexualidade da esposa do seu amante. Desejava ardentemente entender aquela mulher misteriosa que parecia invulnerável a tudo. Os três envolveram-se, então, num complexo triângulo amoroso, no qual Miller parecia ser o óbvio troféu mas que acabou por se transformar no grande perdedor do jogo amoroso.

Ao fim de um tempo,Anais e June focaram as suas energias, uma na outra, num romance selvático e carregado de um erotismo singular, inspirando Anais a escrever emotivas descrições nos seus diários. Numa das páginas, a escritora descreve como as duas mulheres faziam amor na cama de Henry enquanto ele dormia no quarto ao lado.

E é então que a tempestade começa. Henry descobre algumas cartas de amor obsessivas, escritas por Anais a June e toma consciência, finalmente, da extensão da relação entre a amante e a esposa. Numa delas, a escritora clama o seu amor por June e implora-lhe que se divorcie de Henry imediatamente, para que as duas possam ficar juntas livremente. 0 escritor fica chocado com a descoberta, sentindo-se trocado e cheio de ciúmes.

Confusa e perdida, Anais não sabe o que há-de fazer. Está dividida entre um amor intelectual por Miller e uma paixão obsessiva por June, não sendo capaz de optar. Para evitar desgostos e mágoas, acaba por decidir quebrar o bizarro triângulo, terminando a relação ambígua que mantinha com o casal. Anais compra dois bilhetes de avião e, literalmente, obriga Henry a partir para a Inglaterra e June a regressar aos Estados Unidos.

O escritor conseguiria voltar para junto de Anais, algum tempo depois. No entanto, a relação não iria resistir muito tempo. Um dos romances mais tórridos da literatura mundial haveria de terminar sem carinhos nem afectos.



Henry e June, de Philip Kaufman, 1990

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