segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Anaïs Nin (Vida - Parte II)


Anais Nin nasceu em Neuilly-sur-Seine, nos arredores de Paris, em Fevereiro de 1903. A menina foi a primeira de três filhos de um jovem casal que, embora fosse muito apaixonado, vivia em permanente conflito. O pai de Anais era um compositor de origem espanhola chamado Joaquin Nin. A mãe era Rosa Culmell, a filha preferida de um rico comerciante de açúcar. Logo após o matrimónio, Rosa e Joaquin ficaram a viver na capital francesa, onde cedo se revelaram as incompatibilidades existentes entre um e outro.

Os primeiros diários de Anais lembram uma vivência caseira tumultuosa, manchada pela imagem de Joaquin e pela evidência do casamento falhado dos pais. Dessas memórias de infância, salta à vista, sobretudo, a influência crucial da figura paterna na vida da escritora, uma marca que iria determinar a sua personalidade à medida que ia crescendo. Joaquin era um galã, um homem charmoso que preferia dedicar-se aos prazeres da conquista amorosa, esquecendo os deveres para com a sua família. Pelos escritos de Anais, percebe-se ainda que o pai era um homem bizarro de personalidade cruel. A menina era o alvo primordial da sua estranha forma de ser. Descrições vividas, recordam vários incidentes violentos, em que Joaquin espancava e molestava sexualmente a sua filha. A escritora lembra mesmo como o pai a costumava chamar de "rapariga pequena e feia" enquanto a fotografava no banho. Todas esta experiências iriam assombrar e fascinar a autora nos seus últimos anos de vida.

Quando Anais tinha 11 anos, Joaquin decidiu sair de casa, abandonando Rosa e seus filhos. No entanto, Joaquin não desapareceu assim tão facilmente e, mesmo à distância, continuava a exercer uma grande influência. Anais livrou-se da violência física mas não conseguiu escapar às pressões psicológicas do seu pai, que lhe escrevia regularmente pequenos bilhetes, convencendo-a de que ela o deveria amar, admirar e até imitar na maneira como manipulava os que estavam à sua volta. Tudo isto tentou a escritora fazer ao longo da sua vida.

Em 1914, assombrada pelas memórias do casamento falhado, Rosa decidiu que já não conseguia viver mais em Paris. Reuniu a sua família e embarcou para Nova Iorque para começar uma nova vida. Na viagem até aos Estados Unidos, Anais escreveu uma carta ao seu pai, um texto que nunca chegaria às mãos de Joaquin e que acabaria por ser a génese do 14º volume do diário de Anais Nin. Este diário, que por fim iria compreender 50 anos de vida e 35 mil páfinas de histórias, transformou-se numa detalhada descrição da vida da autora, um veículo para as suas ambições artísticas, a expressão dos seus desejos mais íntimos e laboratório para a busca psicológica incessante que foi a vida de Anais.

A escritora odiou a América desde o primeiro dia em que lá chegou. "É demasiado rápida", confidenciou ela mais tarde. Apesar disso,manteve-se sempre ligada aquele pais, assumindo-se como norte-americana, vivendo boa parte da sua vida entre Nova lorque e Los Angeles. Foi ai que Anais começou a escrever com mais empenho, dedicando-se nao só a preencher as páginas do seu diário mas, também, a elaborar contos e novelas. A sua escrita, ainda que muito imatura nesta época, revelava já uma personalidade perturbada e confusa, um carácter algo bizarro herdado do seu pai. Anais era uma criança solitaria que se rebelava contra a sua educação católica e os valores sociais conservadores que não conseguia entender.

Os tempos de escola foram para Anais anos de martírio. A rapariga detestava as aulas e os professores, não encontrando qualquer utilidade nas matérias que era obrigada a aprender. As suas únicas paixões eram a leitura e a escrita, interesses que nao conseguia explorar e desenvolver no liceu. Os textos de Anais eram severamente criticados pelos professores que a aconselhavam a parar de escrever e a dedicar--se a outra materia mais adequada ao seu reduzido talento. Finalmente, urn dia, não suportou mais as ofensas e decidiu abandonar a escola definitivamente, depois de urn professor a ter acusado de escrever de forma demasiado literária e estilizada.

Assim, aos 16 anos, Anais abandonava os estudos para iniciar a sua própria "auto-educação". Apesar das criticas desmoralizantes, a rapariga tinha já decidido ser escritora, tornando-se, a partir dessa altura,mestre literária de si mesma. Nesse sentido, começou a ler vorazmente todos os livros que encontrava, aprendendo novas formas de escrita e melhorando o seu estilo pessoal.

Em 1923, aos 20 anos, Anais casa com o banqueiro Hugh Parker Guiler, conhecido por todos como Hugo. Uma relaçãoque duraria muitos e longos anos, sempre balançando entre o entusiasmo ardente e indiferença. Artista por natureza, Hugo tinha desisitido da poesia pelos negócios do banco.

Anais abominava este mundo onde o marido se movimentava, mostrando-se sempre aborrecida com as conversas sobre as actividades bancárias. A escritora imaginara para si uma vida completamente diferente.
Apesar da frustração, Anais estava disposta a ser a esposa perfeita. Dessa forma e por amor a Hugo, criou uma imagem de casamento feliz e ficcional. Uma imagem que nao conseguia manter, porém, já que as incompatibilidades eram por demais evidentes.

Uma das razões da falência do matrimonio com Hugo era a pouca actividade sexual do casal. Tendo em conta as memórias do seu diário, percebe-se que a jovem Anais, apreensiva e inexperiente, tinha medo
de sexo, receando o contacto íntimo com o seu marido. Para agravar a situação, Hugo era sexualmente fóbico, sofrendo de falta de líbido. Como resultado disso, Anais só teve a sua noite de núpcias quase um
ano depois de ter casado com Hugo. As relações sexuais com o marido eram sempre experiências  dolorosas para Anais, pelo que o casal chegou a um ponto em que quase abdicou de qualquer actividade
mais íntima. A escritora cedo percebeu que o marido nunca a haveria de satisfazer sexualmente. "0 meu verdadeiro ser não é esposável, mas ousado, activo e faminto", escreveu a propósito Anais.

Para esquecer a frustração sexual que sentia, tentou refugiar-se na literatura, procurando dar um sentido intelectual aos seus desejos. No entanto, a vontade de descobrir e explorar a sua sexualidade falavam
mais alto e Anais ja não conseguia reprimir os seus anseios. Quando saía com Hugo, em reuniões e festas sociais, nao parava de olhar para os homens que a rodeavam. Quando chegava a casa, culpava-se por
se sentir atraída por outros homens. Que poderia ela fazer, se Hugo não correspondia aos seus mais íntimos desejos?

Eventualmente, acabou por aceitar e compreender a sua situação, tomando coragem para procurar, fora do lar, a experiência sexual que o marido nao lhe podia dar. Já sem medos ou culpas, Anais começou a namoriscar mesmo a frente de Hugo. Este parecia nao se importar, consciente dos problemas íntimos que afectavam o casal. À medida que foi ganhando confiança em si própria, Anais foi sendo mais atrevida
e indiscreta, desafiando os homens com a sua beleza e charme. O género masculino era como que um mistério que ela desejava desvendar. Eles, por seu lado, não conseguiam resistir àquela mulher,tão diferente e encantadora, avida de amor e sexo. Assim, nesta altura, Anais inicia varias relações amorosas que só podem ser catalogadas como conquistas de exploraçãosexual. Ao mesmo tempo, ela procurava a aceitação que não encontrava entre o círculo de amigos de Hugo, buscando incessantemente pelas suas almas gémeas.

Anais descrevia-se a si própria, nesta fase da sua vida, como "uma prostituta virgem", ansiando pela sua verdadeira realizaçãosexual. Ela queria que todos os homens se apaixonassem por ela, mas aborrecia-
se, rapidamente, quando eles não significavam nenhum desafio. Os seus casos amorosos eram mais que simples actos de sedução, eram troféus da sua sexualidade. E foram muitos nesta altura.

Anais nunca negou os seus sentimentos por Hugo, confessando sempre que o amava apesar dos desentendimentos. "Estamos unidos de uma forma tão bela. Mas não consigo ficar em casa. Tenho um desejo desesperado de conhecer a vida", escrevia a autora no seu diário. Para não magoar o marido, Anais fazia malabarismos extraordinários a fim de esconder os seus adultérios. Chegou a recorrer a um diário falso,
onde propositadamente omitia os detalhes da sua promiscuidade.  Hugo preferia fingir que ignorava as aventuras sexuais da mulher. Foi sempre urn homem totalmente dedicado e apaixonado por Anais,
mantendo-se casado com ela até ao dia da morte da escritora.

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