domingo, 15 de agosto de 2010

Cântico dos Cânticos

 
O livro Cântico dos Cânticos, também chamado de Cantares , Cântico Superlativo, ou Cântico de Salomão, faz parte dos livros poéticos do Antigo Testamento. Representa, em hebraico, uma fórmula de superlativo; significa o mais belo dos cânticos, Cântico por Excelência ou o cântico maior.

Este livro é uma colecção de cantos populares de amor, usados talvez em festas de casamento, em que noivo e noiva são chamados de rei e rainha. Cântico dos Cânticos é um livro com oito capítulos. Apesar da sua brevidade, apresenta uma estrutura complexa. Diferentes personagens têm voz e, em muitas traduções da Bíblia, alternam a sua fala de modo inesperado, dificultando, assim, a sua leitura.

As três personagens principais do poema são: o noivo, isto é, "o Pacífico"; a noiva, mencionada como "Sulamita", a Pacificada; e as "filhas de Jerusalém" que servem como coro para ecoar os sentimentos da Sulamita, enfatizando seu amor e afeição pelo noivo.

A canção de amor divide-se em duas partes com mais ou menos o mesmo tamanho. O início do Amor (Cap.1-4) e seu Amadurecimento (cap.5-8).


Ct 1

Diálogo apaixonado

1 Cântico dos cânticos, que é de Salo­mão.

Ela

2 Que ele me beije com beijos da sua boca!
Melhores são as tuas carícias que o vinho,
3 ao olfacto são agradáveis os teus perfumes;
a tua fama é odor que se difunde.
Por isso te amam as donzelas.
4 Arrasta-me atrás de ti. Corra­mos!
Faça-me entrar o rei em seus apo­sentos.
Folgaremos e alegrar-nos-emos con­­tigo;
mais do que o vinho celebrare­mos teus amores.
Com razão elas te amam.


5 Sou morena, mas formosa,
mulheres de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os tecidos de Salomão.
6 Não estranheis eu ser morena:
foi o sol que me queimou.
Comigo se indignaram os filhos de minha mãe,
puseram-me de guarda às vinhas;
e a minha própria vinha não guar­dei.
7 Avisa-me tu, amado do meu cora­ção:
para onde levas o rebanho a apas­­centar?
Onde o recolhes ao meio-dia?
Que eu não tenha de vaguear oculta,
atrás dos rebanhos dos teus com­panheiros.

Ele

8Se não tens disso conhecimento,
ó mais bela das mulheres,
sai no encalço do rebanho
e apascenta as tuas cabrinhas
junto às cabanas dos pastores.

9A uma égua entre os carros do Faraó
eu te comparo, ó minha amiga.
10Formosas são as tuas faces en­tre os brincos,
e o teu pescoço com os colares!
11Para ti faremos arrecadas de ouro
com incrustações de prata.

Ela

12 Enquanto o rei está em seu divã,
o meu nardo dá o seu perfume.
13 Uma bolsinha de mirra é o meu amado para mim,
que repousa entre os meus seios;
14 um cacho de alfena é o meu amado para mim,
das vinhas de En-Guédi.

Ele

15 Ah! Como és bela, minha amiga!
Como são lindos os teus olhos de pomba!

Ela

16 Ah! Como é belo o meu amado!
E como é doce,
como é verdejante o nosso leito!
17 Cedros são as vigas da nossa casa,
e os ciprestes, o nosso tecto.

Ct 2


Vem o amado

1 Eu sou o narciso de Saron, eu sou o lírio dos vales.

Ele

2 Tal como um lírio entre os cardos
é a minha amada entre as jo­vens.

Ela

3 Tal como a macieira entre as ár­vores da floresta
é o meu amado entre os jovens.
Anseio sentar-me à sua sombra,
que o seu fruto é doce na minha boca.
4 Leve-me para a sala do banquete,
e se erga diante de mim a sua ban­deira de amor.
5 Sustentem-me com bolos de pas­sas,
fortaleçam-me com maçãs,
porque eu desfaleço de amor.
6 Por baixo da minha cabeça Ele põe a mão esquerda
e abraça-me a sua mão direita.
7 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém,
pelas gazelas ou pelas corças do monte:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

8 A voz de meu amado! Ei-lo que chega,
correndo pelos montes,
saltando sobre as colinas.
9 O meu amado é semelhante a um gamo
ou a um filhote de gazela.
Ei-lo que espera,
por detrás do nosso muro,
olhando pelas janelas,
espreitando pelas frinchas.
10 Fala o meu amado e diz-me:

Ele

Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
11 Eis que o Inverno já passou,
a chuva parou e foi-se embora;
12 despontam as flores na terra,
chegou o tempo das canções,
e a voz da rola
já se ouve na nossa terra;
13 a figueira faz brotar os seus figos
e as vinhas floridas exalam per­fume.
Levanta-te! Anda, vem daí,
ó minha bela amada!
14 Minha pomba, nas fendas do ro­chedo,
no escondido dos penhascos,
deixa-me ver o teu rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Pois a tua voz é doce
e o teu rosto, encantador.

15 Agarrai-nos as raposas,
essas raposas pequenas
que devastam as vinhas,
as nossas vinhas já floridas.

Ela

16 O meu amado é para mim e eu para ele,
ele é o pastor entre os lírios,
17 até que rebente o dia
e as sombras desapareçam.
Volta, meu amado, e sê como um gamo
ou um filhote de gazela
pelas quebradas dos montes.

Ct 3



Sonhos de amor

Ela

1 No meu leito, toda a noite,
procurei aquele que o meu cora­ção ama;
procurei-o e não o encontrei.
2 Vou levantar-me e dar voltas pela cidade:
pelas praças e pelas ruas, pro­cu­ra­rei
aquele que o meu coração ama.
Procurei-o e não o encontrei.
3 Encontraram-me os guardas
que fazem ronda pela cidade:
«Vistes aquele que o meu coração ama?»
4 Mal me apartei deles, logo en­con­trei
aquele que o meu coração ama.
Abracei-o e não o largarei
até fazê-lo entrar na casa de mi­nha mãe,
no quarto daquela que me gerou.

5 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém,
pelas gazelas ou pelas corças do campo:
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

6 Que é isto que sobe do deserto
como colunas de fumo,
exalando aroma de mirra e in­censo
e todos os perfumes dos merca­do­res?
7 Eis a sua liteira, a de Salomão!
Sessenta soldados a escoltam,
dos mais briosos de Israel,
8 todos cingidos de espada,
experimentados no combate.
Cada um tem à cintura a sua es­pada,
sem temor dos perigos da noite.
9 Um dossel fez para si o rei,
Salomão, com madeiras do Lí­bano:
10 fez de prata os seus pilares
e o encosto, de ouro;
o seu assento é de púrpura,
o seu interior, incrustado com amor
pelas mulheres de Jerusalém.
11 Saí, mulheres de Sião, e admi­rai
o rei Salomão com o diadema
com que o coroou sua mãe
no dia do seu casamento,
no dia de festa do seu coração.

Ct 4


Belezas da amada

Ele

1 Ah! Como és bela, minha amiga!
Como estás linda! Teus olhos são pombas,
por detrás do teu véu.
O teu cabelo é como um rebanho de cabras
que descem do monte Guilead;
2 os teus dentes são um rebanho de ovelhas,
a subir do banho, tosquiadas:
todas elas deram gémeos
e nenhuma ficou sem filhos.
3 Como fita escarlate são teus lá­bios
e o teu falar é encantador;
as tuas faces são metades de romã,
por detrás do teu véu.
4 O teu pescoço é como a torre de David
erguida para troféus:
dela pendem mil escudos,
tudo broquéis dos heróis.
5 Os teus dois seios são dois fi­lhotes
gémeos de uma gazela
que se apascentam entre os lírios,
6 antes que rebente o dia
e as sombras desapareçam.
Quero ir ao monte da mirra
e à colina do incenso.
7 Toda bela és tu, ó minha amada,
e em ti defeito não há.
8 Vem do Líbano, esposa,
vem do Líbano, aproxima-te.
Desce do cimo de Amaná,
do cume de Senir e do Hermon,
dos esconderijos dos leões,
das tocas dos leopardos.

9 Roubaste-me o coração, minha ir­mã e minha noiva,
roubaste-me o coração com um dos teus olhares,
com uma só conta do teu colar.
10 Como são doces as tuas carí­cias, minha irmã e noiva!
Muito melhores que vinho são as tuas carícias;
mais forte que todos os odores
é a fragrância dos teus perfumes.
11 Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva;
há mel e leite sob a tua língua,
e o aroma dos teus vestidos
é como o aroma do Líbano.

12 És um jardim fechado, minha ir­mã e minha esposa,
um jardim fechado, uma fonte se­­lada.
13 Os teus rebentos são um pomar de romãzeiras
com frutos deliciosos,
com alfenas e nardos,
14 nardo e açafrão,
cálamo e canela,
com toda a espécie de árvores de incenso,
mirra e aloés,
com todos os bálsamos escolhi­dos.
15 És fonte de jardim, nascente de água viva
que jorra desde o Líbano.

Ela

16 Levanta-te, vento norte;
vem, vento do sul;
vem soprar no meu jardim.
Que se espalhem os seus perfu­mes.
O meu amado entrará no seu jar­dim
e comerá os seus frutos delicio­sos.

Ct 5



Procurar o amado

Ele

1 Entrei no meu jardim, minha ir­mã e minha esposa,
colhi a minha mirra e o meu bál­samo,
do meu favo de mel,
bebi o meu vinho e o meu leite.
Comei, ó companheiros,
bebei e embriagai-vos, ó bem ama­­­dos!

Ela

2 Eu dormia, mas de coração des­perto.
Chamam! É a voz do meu amado, batendo à porta:

Ele

Abre, minha irmã e amiga, pom­ba incomparável!
Tenho a cabeça coberta de orva­lho,
e os meus cabelos, das gotas da noite.

Ela

3 Já despi a minha túnica.
Vou tornar-me a vestir?
Já lavei os meus pés.
Vou sujá-los de novo?
4 Meu amado passou a sua mão pela fresta
e as minhas entranhas estreme­ce­ram por ele.
5 Levantei-me para abrir ao meu amado;
as minhas mãos gotejavam mirra,
os meus dedos eram mirra escor­rendo
nos trincos da fechadura.
6 Fui abrir ao meu amado
e o meu amado já tinha desa­pa­recido.
Fora de mim, corro atrás das suas palavras;
procuro e não o encontro,
chamo e não me responde.
7 Encontram-me os guardas
que fazem a ronda na cidade,
espancam-me, ferem-me:
arrancam-me o véu que me cobre
os guardas das muralhas.
8 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém:
se encontrardes o meu amado,
sabeis o que dizer-lhe?
Que eu desfaleço de amor.

Elas

9 Que é o teu amado mais do que um amado,
ó mais bela das mulheres?
Que é o teu amado mais do que um amado,
para assim nos conjurares?

Ela

10 O meu amado é alvo e rosado,
distingue-se entre dez mil;
11 a sua cabeça é de ouro maciço;
são cachos de palmeira os seus cabelos,
negros como o corvo;
12 os seus olhos são como pombas,
nos baixios das águas,
banhadas em leite,
pousadas no ribeiro.
13 As suas faces são canteiros de bálsamo,
onde crescem plantas perfumadas;
os seus lábios são lírios,
gotejam mirra que se expande;
14 os seus braços são ceptros de ouro,
engastados com pedras de Társis;
o seu ventre é marfim polido,
cravejado de safiras;
15 as suas pernas são pilares de ala­bastro,
assentes em bases de ouro fino;
o seu aspecto é como o do Líbano,
um jovem esbelto como os cedros;
16 a sua boca é só doçura
e todo ele é delicioso.
Este é o meu amado; este, o meu amigo,
mulheres de Jerusalém.

Ct 6


Novo retrato da amada

Elas

1 Aonde foi o teu amado,
ó mais bela das mulheres?
Aonde foi o teu amado?
E nós o buscaremos contigo.

Ela

2 O meu amado desceu ao seu jar­dim,
ao canteiro dos aromas,
para apascentar nos jardins
e para colher lírios.
3 Eu sou para o meu amado e o meu amado é para mim,
ele é o pastor entre os lírios.

Ele

4 Tu és bela, minha amada, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém;
és terrível como as coisas gran­diosas.
5 Afasta de mim os teus olhos,
os olhos que me enlouquecem.
A tua cabeleira é um rebanho de cabras
que descem de Guilead;
6 os teus dentes são um rebanho de ovelhas
a subir do banho, tosquiadas:
todas elas deram gémeos
e nenhuma ficou sem filhos;
7 as tuas faces são metades de romã,
por detrás do teu véu.
8 Sessenta são as rainhas,
oitenta as concubinas
e as donzelas, sem conta.
9 Mas ela é única, minha pomba, minha perfeita;
ela é a única para a sua mãe,
a preferida daquela que a deu à luz.
Louvam-na as donzelas quando a vêem,
celebram-na rainhas e concubinas.

Elas

10 Quem é essa que desponta como a aurora,
bela como a Lua,
fulgurante como o Sol,
terrível como as coisas gran­dio­sas?

Ela

11 Desci ao jardim das nogueiras,
para admirar o vigor do vale,
para ver se as vides rebentavam,
se os cachos já se abriam.

12 Nem conheço o desejo que me ar­rasta
no carro com o meu príncipe.

Ct 7


A dança do amor

Amigos

1 Volta-te, volta-te, Sulamita!
Volta-te, volta-te, para te vermos!
Que vedes na Sulamita,
quando baila entre dois coros?

Ele

2 Quão formosos são teus pés
nas sandálias, ó princesa!
As curvas dos teus quadris
parecem colares, obra de mãos de artista.
3 O teu umbigo é uma taça re­donda.
Que não falte o vinho doce!
O teu ventre é monte de trigo,
todo cercado de lírios.
4 Os teus seios são dois filhotes
gémeos de uma gazela;
5 o teu pescoço, uma torre de mar­fim;
os teus olhos, as piscinas de Hes­bon,
junto às portas de Bat-Rabim;
o teu nariz é como a torre do Lí­bano,
de vigia, voltada para Damasco.
6 A tua cabeça ergue-se como o Car­melo
e os teus cabelos são como púr­pura;
trazem um rei cativo dos seus laços.
7 Como és bela, como és desejável,
meu amor, com tais delícias!
8 Esse teu porte é semelhante à palmeira,
os teus seios são os seus cachos.
9 Pensei: «Vou subir à palmeira,
vou colher dos seus frutos.»
Sejam os teus seios
como cachos de uvas,
e o hálito da tua boca, perfume de maçãs.
10 A tua boca bebe o melhor vinho!

Ela

Que ele escorra por sobre o meu amado,
molhando-lhe os lábios adorme­cidos.
11 Eu pertenço ao meu amado,
e o seu desejo impele-o para mim.
12 Anda, meu amado,
corramos ao campo,
passemos a noite sob os cedros;
13 madruguemos pelos vinhedos,
vejamos se as vides rebentam
e se abrem os seus botões,
e se brotam as romãzeiras.
Ali te darei as minhas carícias.
14 As mandrágoras exalam o seu per­­fume,
à nossa porta há toda a espécie de frutos,
frutos novos, frutos secos,
que eu guardei, meu amado, para ti.

Ct 8


Parábolas do amor

1 Quem dera fosses meu irmão, amamentado aos seios da minha mãe!
Ao encontrar-te na rua beijar-te-ia,
sem censura de ninguém.
2 Eu te levaria para casa de minha mãe
e tu me ensinarias;
dar-te-ia a beber do vinho perfu­mado,
do mosto das minhas romãs.
3 Com a sua mão esquerda debaixo da minha cabeça,
a sua direita me abraça.
4 Eu vos conjuro, mulheres de Jeru­salém;
não desperteis nem perturbeis
o meu amor, até que ele queira.

Elas

5 Quem é essa que sobe do deserto,
encostada ao seu amado?

Ela

Sob a macieira te despertei,
lá onde a tua mãe sentiu as dores,
onde sentiu as dores a que te deu à luz.
6 Grava-me como selo em teu co­ração,
como selo no teu braço,
porque forte como a morte é o amor,
implacável como o abismo é a pai­xão;
os seus ardores são chamas de fogo,
são labaredas divinas.
7 Nem as águas caudalosas conse­guirão
apagar o fogo do amor,
nem as torrentes o podem submer­gir.
Se alguém desse toda a riqueza de sua casa
para comprar o amor,
seria ainda tratado com des­prezo.

Irmãos

8 Temos uma irmã pequenina;
ela ainda não tem seios.
Que faremos da nossa irmã,
quando vierem falar nela?
9 Se ela é uma muralha,
nela faremos ameias de prata;
se é uma porta,
reforçá-la-emos com traves de cedro.

Ela

10 Sim, eu sou uma muralha
e os meus seios são torres.
Por isso, a seus olhos me trans­formei
naquela que traz a paz.

Ele

11 Salomão tinha uma vinha
em Baal-Hamon.
Confiou a vinha a uns guardas:
cada um lhe dava pelo fruto mil siclos de prata.
12 A minha vinha é minha, fica co­migo;
para ti, Salomão, fiquem os mil siclos,
e mais duzentos para os que lhe guardam o fruto.
13 Estás sentada no meio dos jar­dins
e os companheiros escutam a tua voz.
Deixa-me também ouvir-te.

Ela

14 Corre, meu amado! Sê como um gamo
ou um filhote de gazela,
pelos montes perfumados.

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