terça-feira, 24 de agosto de 2010

Cantigas d' escarnho e de maldizer


Da lírica medieval galego-portuguesa não constam unicamente cantigas de amor e de amigo. A sátira, presente no serventês provençal, chegado às nossas terras, influenciou os trovadores e jograis que, apoiando-se talvez numa tradição satírica autóctone transmitida oralmente e anterior à convivência com as formas occitânicas, criaram um novo modo de trobar: as cantigas d' escarnho e de maldizer.


Joan Garcia de Guilhade

Trovador português do século XIII, foi autor de poemas mordazes e célebres como "Ai dona fea, foste-vos queixar".
Nesta cantiga, Guilhade cobiça a mulher do jogral Martim, traduzindo bem, ao estilo popular, a ansiedade do homem que deseja a mulher possuída por outro.

Martin jograr, que gran cousa:
já sempre con vosco pousa
       vossa mulher!

Veedes m' andar morrendo,
e vós jazedes fodendo
       vossa mulher!

Do meu mal non vos doedes
e moir' eu, e vós fodedes
       vossa mulher!


Joan Soárez Coelho

Trovador português do século XIII, foi também cavaleiro da corte de D. Afonso III, participando na conquista do Algarve.
Nesta cantiga faz um jogo verbal a propósito do sobrenome duma soldadeira, Maria do Grave. O trovador esclarece o termo "grave" segundo os seus valores expressivos, que se resumem fundamentalmente a "difícil" e "custosa", os quais se ajustavam bem à soldadeira, pois era custosa (=cara), mas não difícil, como o autor declara ter já experimentado.

Maria do Grave, grav' é de saber
por que vos chaman Maria do Grave,
cá vós non sodes grave de foder,
e pero sodes de foder mui grave;
e quer', en gran conhocença, dizer:
sen leterad' ou trobador seer,
non pod' omen departir este "grave".

Mais eu sei ben trobar e ben leer
e quer' assi departir este "grave":
vós non sodes grav' en pedir aver,
por vosso con', e vós sodes grave,
a quen vos fode muito, de foder;
e por aquesto se dev' entender
por que vos chaman Maria do Grave.

E pois vos assi departi este "grave",
tenho-m' end' ora por mais trobador;
e ben vos juro, par Nostro Senhor,
que nunca eu achei tan grave
com' é Maria - e já o provei -
do Grave; nunca pois molher achei
que a mi fosse de foder tan grave.


Pero d' Ambroa

Trovador galego do século XIII, compôs fundamentalmente cantigas d' escarnho e maldizer. É referenciado em cantigas de outros trovadores e jograis pela sua piedosa intenção de querer ir até Jerusalém em peregrinação, mas mais não fez que ir até Saca dé Uen (Sacavém).
Nesta cantiga, Pero d' Ambroa, em face do preço exorbitante que uma soldadeira lhe pedia por sexo, roga-lhe, com malícia, que o venda a retalho, à semelhança do que se fazia com outros géneros, como o pão, as verças, a carne e o sal. O termo "fazer soldada" traduz a operação comercial de vender a miúdo.

Pedi eu o cono a ua molher,
e pediu-m' ela cen soldos enton;
e dixe-lh' eu logo: - Mui sen razon
me demandades; mais, se vos prouguer,
fazed' ora - e faredes melhor -
ua soldada polo meu amor
a de parte, ca non ei mais mester.

Fazen soldada do ouro, que val
mui mais ca o vosso cono, de pran;
fazen soldada de verça, de pan,
fazen soldada de carn' e de sal;
poren devedes do cono fazer
soldada, ca non á de falescer,
se retalhardes, quen vos compr' o al.

E podede-lo vender - eu o sei -
tod' a retalho, por que saberan
que retalhardes, e comprar-vos-an
todos d' el parte, como eu comprei.
Ainda vos d' al farei mui melhor:
se do embiigo avedes sabor,
contra o rabo vo-lo filharei.


Martim Soares

Trovador português do século XIII, frequentou a corte de Afonso X, rei de Leão e Castela. Em toda a sua produção poética deixou transparecer a sua veia irónica.
Esta cantiga terá sido dedicada a Pero Rodrigues Grongelete, uma vez que constava que a sua mulher lhe era infiel...


Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.


Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.


Esta outra cantiga terá sido dedicada a Afonso Eanes de Coton, em que Martim Soares, referindo-se na primeira pessoa, apontava os defeitos que afamavam o dito trovador...

 Meu Nosso Senhor, ando eu molestado
com todos os vícios que me foste dar.
Sou dos putanheiros o mais porfiado;
não menos me apraz os dados jogar;
e é grande o prazer que sinto em errar
por estas vielas, do mundo apartado.


Se de melhor vida fora venturoso,
lograra mais preço e mais honras ter.
Mas deste foder mais me apraz o gozo;
e o destas tabernas, e o deste beber.
Já que outra virtude não posso valer,
valha-me viver contente e viçoso.


Se não valho nada e não alimento
esperança de alguma virtude alcançar,
não quero perder este arreitamento,
tão pouco estas putas e este disputar.
Por outras fronteiras não quero eu andar,
trocando o meu viço por agastamento.


E muitos mais vícios acrescentaria,
que cúmplices são do meu desmerecer.
Nunca frequentei a tafularia (jogo),
sem ali desordens, distúrbios fazer;
e, cobardemente, ponho-me a mexer
buscando agasalho entre a putaria.


Quando consolado de muito gozar,
merendo, e, depois, ponho-me a caminho,
aí deixo as putas meus vícios gabar,
louvando-me as manhas e o descaminho.


Afonso Eanes de Coton

Trovador galego do século XIII, Afonso Eanes de Coton cultivou quase exclusivamente a sátira, na qual nos deixou treze cantigas que lhe são atribuídas e que são demonstrativas da vida de tabernário e frequentador de mulheres fáceis, como se costumava dizer. Esta primeira cantiga é dedicada a Marinha.

Marinha, o teu folgar
tenho eu por desacertado,
e ando maravilhado
de te não ver rebentar;
pois tapo com esta minha
boca, a tua boca, Marinha;
e com este nariz meu,
tapo eu, Marinha, o teu;
com as mãos te tapo as orelhas,
os olhos e as sobrancelhas,
tapo-te ao primeiro sono;
com a minha piça o teu cono;
e como o não faz nenhum,
com os colhões te tapo o cu.
E não rebentas, Marinha?

Esta outra cantiga é dedicada a Maria Mateu, a quem Afonso Eanes atribui preferências lésbicas, apesar de não estar excluída a hipótese de ter sido esta a mulher a quem se ligou.

Mari'Mateu, ir-me quer'eu d'aquén,
porque non poss'un cono baratar;
alguén que mi o daría non no ten,
e algũa que o ten non mi o quer dar.
Mari'Mateu, Mari'Mateu,
tan desejosa ch'es de cono com'eu!


E foi Deus ja de conos avondar
aquí outros, que o non han mester,
e ar feze-os muito desejar
a min e ti, pero que ch'es molher.
Mari'Mateu, Mari'Mateu,
tan desejosa ch'és de cono com'eu!

Nesta cantiga, o trovador acusa Maria Garcia de não o ter recompensado devidamente depois do mesmo lhe ter prestado o serviço de dormir com ela.
 
Ben me cuidei eu, María García,
en outro día, quando vos fodí,
que me non partiss'eu de vós assí
como me partí ja, mão vazía,
vel por serviço muito que vos fiz;
que me non destes, como x'homen diz,
sequer un soldo que ceass'un día.


Mais desta seerei eu escarmentado
de nunca foder ja outra tal molher,
se m'ant'algo na mão non poser,
ca non hei por que foda endoado;
e vós, se assí queredes foder,
sabedes como: ide-o fazer
con quen teverdes vistid'e calçado.


Ca me non vistides nen me calçades
nen ar sej'eu eno vosso casal,
nen havedes sobre min poder tal
por que vos foda, se me non pagades;
ante mui ben e máis vos én direi:
nulho medo, grado a Deus e a el-Rei,
non hei de força que me vós façades.

E, mia dona, quen pregunta non erra;
e vós, por Deus, mandade preguntar
polos naturaes deste logar
se foderan nunca en paz nen en guerra,
ergo se foi por alg'ou por amor.
Id'adubar vossa prol, ai, senhor,
c'havedes, grad'a Deus, renda na terra.

Esta última cantiga, extremamente atrevida, aponta uma abadessa de costumes relaxados, que o trovador, recém-casado, queria tomar como mestre na ciência do amor. A ela igualmente deviam recorrer todas as mulheres inexperientes.

Abadessa, oí dizer
que érades mui sabedor
de todo ben; e, por amor
de Deus, querede-vos doer
de min, que ogano casei,
que ben vos juro que non sei
mais que un asno de foder.

Ca me fazen en sabedor
de vós que avedes bon sen
de foder e de todo ben;
ensinade-me mais, senhor,
como foda, ca o non sei,
nen padre nen padre non ei
que m' ensin', e fiqu' i pastor.

E se eu ensinado vou
de vós, senhor, deste mester
de foda e foder souber
per vós, que me Deus aparou,
cada que per foder, direi
Pater Noster e enmentarei
a alma de quen m' ensinou

E per i podedes gaar,
mia senhor, o reino de Deus:
per ensinar os pobres seus
mais ca por outro jajuar,
e per ensinar a molher
coitada, que a vós veer,
senhor, que non souber ambrar.


Pero da Ponte
 
Pero da Ponte era galego, frequentou a corte de Afonso X e, provavelmente, a de Jaime I de Aragão.
A sua intimidade com Afonso de Coton, bem como as alusões frequentes que faz a hábitos de alcoolismo de Afonso X, dão-nos a entender que ele próprio seria frequentador destes mesmos hábitos e da vida boémia em geral.
Esta cantiga trata-se de uma provocação a D. Bernaldo por este se ter apaixonado, na sua velhice, por uma dita "mulher de vida fácil".

Dom Bernaldo, pois trazeis
convosco uma tal mulher,
a pior que conheceis,
que se o alguazil souber,
açoitá-la quererá.
A puta queixar-se-á
e vós, assanhar-vos-eis.


Mas vós que tudo entendeis,
quanto um bom segrel entende,
por que demónio viveis
com uma puta que se vende?
Porque, vede o que fará:
alguma vos pregará,
de que vergonha tereis.


E depois, o que fareis
se alguém a El-Rei contar
a mulher com quem viveis
e ele a quiser justiçar?
Se nem Deus lhe valerá,
muitos vos molestará,
pois valer-lhe não podeis.


E nem vos apercebeis
que se ela tiver um filho,
andando, como sabeis,
com o primeiro maltrapilho,
o que receio para já,
de vós se suspeitará
que no filho parte haveis.

Esta segunda cantiga de Maldizer relata uma história em que Pero da Ponte terá sido supostamente atacado por dois homossexuais que o tentaram violar, uma vez que ele desprezava todo e qualquer homossexual.

Porque mal digo, como homem fodilhão,
o mais que posso destes invertidos,
contra eles trovando e seus maridos,
quis um deles deixar-me em grande espanto:
topou comigo e sobraçando o manto
quis em mim espetar o caralhão.

Porque lhes faço versos e canções
nas quais, quanto mais posso, escarnecendo
vou desses putos que se vão fodendo,
um deles, que de noite me agarrou,
quis meter-me o caralho, mas errou
e lançou sobre mim os seus colhões.

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