quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"A Arte de Amar" de Ovídeo

Publius Ovidius Naso, poeta romano, conhecido por Ovídio, nasceu em 43 a.C. em Sulmo, actual Sulmona, em Itália.
Já com mais de 60 anos, Ovídeo foi banido de Roma por causa de seu livro em verso, “A Arte de Amar”, considerada imoral pelo imperador Augusto. Morreu no ano 17.

Particularmente prezada durante a Antiguidade, lida e relida - sobretudo às escondidas - ao longo de quase toda a Idade Média, revalorizada com sempre renovado interesse a partir do Renascimento, a Arte de Amar de Ovídio não é apenas um dos monumentos perenes da literatura ocidental, mas também uma espécie de ponte ininterrupta, com sólidos pilares assentes no curso movediço de cada século, a atestar e a reforçar a continuidade dessa mesma literatura. Compósita mistura de Bíblia profana, de Manual de Bordo e de Livro de Cozinha para uso dos aprendizes do amor, a Arte de Amar tem vivido clandestinamente sob o alçado de escrevaninhas devotas, ocupado os mais secretos lugares no topo das estantes mais veneráveis, transitado de mão em mão sob a capa de sucessivas gerações de estudantes, pernoitado em celas de conventos e em celas de prisões, em castelos, em palácios e em estalagens, em boudoirs de cocottes e em tendas de campanha, em bordéis, em solares, em escolas, em beliches de transatlântico e em compartimentos de caminho de ferro …

(excerto do prefácio de David Mourão-Ferreira à edição Vega de Arte de Amar - tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira)

Dos ensinamentos que me resta dar
já me sinto corar.
Mas diz-me a benévola Dione:
«o que causa vergonha, eis a nossa tarefa.»
Que cada uma de vós a fundo se conheça
e escolha a atitude
que mais em harmonia com o corpo lhe pareça.
A mesma posição a todas não convém.
Se o teu corpo é bonito deita-te sobre as costas
e é de costas que deves tua nudez mostrar,
se à perfeição do dorso nada tens a apontar.
Também tu cujo ventre Lucina encheu de rugas
faz como o Parto que no combate volta o dorso.
Milanion trazia sobre os ombros as pernas de Atalanta;
se as tuas mãos são belas do mesmo modo as mostrarás.
Se a mulher é pequena,
que tome a posição do cavaleiro.
Porque era altíssima
nunca a tebana mulher de Heitor
fez de cavalo em cima do marido.


Se procuras que o homem admire
da tua anca a linha inteira,
com a cabeça atirada para trás
na cama te ajoelha.


Se as tuas coxas têm da juventude o viço
e é impecável o teu peito
fique o homem direito
e obliquamente a ele estende-te no leito.


Não te envergonhes dos cabelos soltar como as Bacantes
e faz girar o colo emoldurado pela solta cabeleira.
Para os prazeres de Vénus praticar há mil maneiras.
Mas a mais repousante e menos complicada
é ficares sobre o flanco direito
meia deitada.
Sinta a mulher que os deleites de Vénus
ressoam nos abismos do seu ser;
e para os dois amantes
seja igual o prazer.
Nunca os doces murmúrios se interrompam
nem as palavras que escorrem quais carícias
e no meio das volúpias não se calem
aquelas que soam mais lascivas.


Mesmo se a natureza te negou
de Vénus as frementes sensações,
finge o doce prazer experimentar
com mentirosas inflexões.
Infeliz da mulher se o órgão de prazer permanece insensível
e que volúpias deve originar para ela e para o amante.
Mas cuidado não seja o fingimento
manifesto e visível.
Que a fingida expressão e os movimentos
que o teu amante enganam
seja aos teus olhos crível.
A volúpia, as palavras e a respiração
serão os instrumentos
com que fabricarás sua ilusão.
Impede-me o pudor de prosseguir.
Do teu órgão, mulher,
são secretos os meios de expressão.

excerto de Arte de Amar, de Ovídeo (tradução de Natália Correia e David Mourão-Ferreira)


Fresco Romano

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