domingo, 25 de julho de 2010

Amar! Amar!


Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa, em 1894. A sua infância rodeou-se de circunstâncias invulgares. João Maria Espanca, seu pai, casado com Marina Inglesa, ao descobrir que a sua mulher não pode ter filhos, impõe-lhe uma regra medieval, segundo a qual, quando a mulher não pode ter filhos, o homem está autorizado a cometer adultério, de modo a ter, através de outra mulher os filhos que a esposa não lhe pode dar, filhos esses que depois traria para o lar. Em 1894, João Maria procura Antónia Lobo, uma mulher humilde, vistosa e desejada na vila, que trabalhava como criada de servir, raptando-a uma noite para a engravidar e mantendo-a escondida durante toda a gravidez. Finalmente, a 8 de Dezembro, Florbela nasce e é baptizada como Flor Bela Lobo, filha de Antónia e de pai incógnito; a madrinha é Mariana, que depois levará Florbela para casa e a tratará como filha. É a casa de Mariana e João Maria Espanca que a mãe de Florbela se vai dirigir para a amamentar.

As atitudes e a obra de Florbela nunca, ou muito raramente, mereceram a simpatia dos seus contemporâneos. O erotismo sem precedentes inerente à sua obra e, acima de tudo, o facto de ter assumido frontalmente dois divórcios e três casamentos, chocaram a sociedade que não reconhecia qualquer autonomia à mulher. Daí terem acusado a poetisa de mulher sedutora e tentadora; provavelmente, a sua figura esbelta e a roupa moderna, bem como o seu carácter firme e determinado, causaram inveja à sociedade da época, que a considerou um escândalo público, uma mulher adúltera, indigna, e sem escrúpulos, cuja conduta moral foi alvo de dúvidas e críticas. Essa situação agravou-se substancialmente com o facto de ser, oficialmente, filha ilegítima de pai desconhecido e por causa das demais circunstâncias que rodearam o seu nascimento.

Segundo Agustina Bessa Luís, Florbela fixa um tipo social que perdurará no tempo: a vagabunda letrada.

(Texto retirado de Estúdio Raposa)


Frémito do meu corpo

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas ...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas ...


Horas Rubras

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas ...

Ouço as olaias rindo desgrenhadas ...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas ...

Os meus lábios são brancos como lagos ...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras ...

Sou chama e neve branca misteriosa...
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca ... o eco dos teus passos
O teu riso de fonte ... os teus abraços
Os teus beijos ... a tua mão na minha

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca
Quando os olhos se me cerram de desejo
E os meus braços se estendem para ti.

Abraço, Klimt

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